domingo, 4 de novembro de 2012

7

Era duas e meia da manhã e há muito tempo Karina não conseguia ficar acordada até tão tarde.

Ela considerava o silêncio da madrugada o seu melhor amigo, mas a rotina lhe fazia cair na cama no máximo às 23h todos os dias, incluindo os finais de semana. A amizade andava um pouco abalada.

A garota de cabelos pretos como as horas mais escuras da noite estava sentada olhando para o seu violão, pensando em uma música... nunca mais tinha criado nada, suas composições estavam cada vez mais aguadas, ou pelo menos era essa a impressão que tinha.

Lá fora, despretensiosamente, uma chuva começava a cair e se tinha uma coisa que ela amava mais do que o silêncio da madrugada, era o silêncio da madrugada interrompido pelo barulho da chuva.

A essa altura já tinha colocado The Cure para tocar deitando no chão somente alguns minutos para olhar as estrelas, ou melhor para onde agora caiam pingos d'água. Ela achava o fenômeno lindo, mas tinha algo estranho essa noite.

A água tinha... cor?

Ela apertou os olhos para saber se estava sonhando, mas não parecia ser o caso.

O sono não tinha chegado, ela tinha certeza.

Esticou a mão pela janela e os dedos saíram multicoloridos. Ela achou graça da cena e resolveu querer mais.

Foi para fora da casa, correu em direção ao mar (morar na beira da praia lhe dava certas vantagens).

A massa quieta geralmente escura, agora reluzia verde, azul, amarelo, rosa. Ondas e mais ondas coloridas vinham dar as boas vindas para a menina que sorria sem acreditar no que via.

Sua pele agora parecia um borrão de descansar pincel, tinha de tudo por ali. Seus cabelos também não tinham mais uma cor definida, a única parte do corpo que permanecia com a tonalidade natural eram seus olhos.

Azuis.

Ela estendeu os braços e se deitou na areia com um único desejo.

Sempre ouviu da mãe, desde pequena, a história da menina que virou uma concha. "A última vez que ela desejou, estava esperando o dia raiar, na madrugada e de repente aconteceu", lembrava a mãe. "Fazer um desejo em madrugada chuvosa pode ser perigoso, minha filha, porque geralmente vira realidade", alertava.

Ela repetiu o desejo, repetiu, e mais uma vez, até que se deu conta de que não reconhecia mais o lugar que estava.

O sol começava a surgir e ela via tudo de um ângulo surreal. Sua casa agora era mais um grão de areia na praia, a cidade havia se tornando uma mancha espalhada, e ela conseguia ir muito além.

Tudo estava no alcance da visão, podia apontar para a torre Effeil e mexer os olhos alguns centímetros até encontrar a estátua da liberdade, a muralha da china ou o Cristo Redentor.

Não tinha mais mãos, pernas, tronco, cabeça... sentia o corpo pulsar por sete faixas longas que ela não fazia ideia de onde começavam e onde terminavam. Tudo parecia mais sensível já que podia sentir a luz lhe atravessar por todos os lados.

O seu desejo havia se tornado realidade.

Ela nunca vai saber dizer se foi sonho ou realidade de uma madrugada chuvosa, mas a jovem adulta que se encantou com a chuva colorida agora tinha virado um arco-íris.